Reflexões sobre o papel do pai na anorexia nervosa

A anorexia  nervosa, que acomete principalmente adolescentes   e adultos jovens do sexo feminino, é caracterizada pela intensa perda de peso devido  a uma alta restrição alimentar, ocasionando prejuízos biológicos, psicológicos e também sociais. 

Entre  os critérios diagnósticos  para o transtorno  estão a restrição da ingestão calórica; medo intenso de engordar, havendo então um  comportamento  persistente para  evitar o ganho de peso; e uma perturbação no modo como o próprio peso é vivenciado, o que caracteriza uma distorção na imagem corporal. São classificados dois subtipos       para a anorexia: o restritivo, em  que a perda de peso ocorre essencialmente  por  meio de dieta,  jejum  e/ou exercício excessivo; e o compulsivo/purgativo, em que o indivíduo se envolve  em episódios recorrentes  de  compulsão  alimentar seguidos de comportamentos purgativos, como a indução ao vômito ou ingestão de laxantes (American Psychiatric Association, 2014).

Os primeiros relatos sobre prováveis casos de anorexia datam da Idade  Média e estavam relacionados à conduta religiosa de privação (Bidaud,   1998;  Peixoto, 2012). Bell (1994), citado por Bidaud (1998),  em seu estudo sobre as chamadas Santas Anoréxicas,  aponta  para uma  tentativa de  união física e mística com Deus  e as descreve como “modelos de coragem, figuras  protetoras  para os  crentes que  disputaram a posse de suas relíquias e escutaram, com veneração,   os pregadores que  falavam de suas atitudes  santas”, por sua vez, chama atenção para a significação do alimento  dentro da relação com a figura  materna na  “anorexia santa”, privilegiando-a  em seu estudo sobre Catarina de Siena, para a qual a comida parecia ser repugnante  e, ao mesmo tempo, tentadora, numa  correspondência ao modo como olhava a mãe.

Alguns exemplos psicanalíticos sobre anorexia nervosa:

• Falta do pai (no caso do filho homem ser o favorito do pai a filha busca um corpo masculino para atrair a atenção paterna).

• Pais que não querem pagar a pensão alimentícia: a filha vê a relação como “pouco nutritiva” e isso reflete na anorexia, materializando a pobreza da relação com o pai em sua alimentação.

• Medo de engravidar (barriga inchada), medo de abusos sexuais, ou medo de abusos do pai, deixa de se alimentar para não ter traços femininos.

• Quando a mãe não deixa o pai ou um terceiro entrar, mãe e filha tornam-se um só (narcisismo), a filha começa a apresentar anorexia como representação do início da sua individualidade, é uma forma de se rebelar contra a mãe, não comendo nada que essa ofereça.

• Mães que falam mal do pai, dizem ter se arrependido daquele relacionamento que gerou os filhos, a filha ou filho se recusa a comer, recusando a parte de seu corpo que representa aquele relacionamento entre pai e mãe, ou seja, recusa o corpo todo como se desejasse “desaparecer” de tanta magreza. Nos casos dos meninos há a recusa em ter um corpo de homem e tornar-se como o pai.

• Pai que quebra a lei universal do incesto, ou que não representa a lei simbólica que regulamente a relação da menina com o alimento.

• Quando o pai por alguma razão (estética ou de saúde) não se alimenta bem a filha reproduz o comportamento para sentir que está ao lado apoiando o pai.

• Depois da primeira menstruação a menina pensa que se sentar no colo do pai vai sujá-lo de sangue e ser vista como mulher, não mais como a “menininha do papai” e tem medo de deixar de ser amada pelo pai após esse processo, com a anorexia e a ausência de menstruação (amenorreia) volta a ser objeto de desejo do pai.

• Reprodução de algum evento traumático onde a menina não consegue resolver o conflito, ou ninguém ouve sobre sua dor, a anorexia aparece como representação de sua dor, deixando um corpo cadavérico como se quisesse dizer “essa situação está acabando comigo, isso está me matando”.

• Mães que falam mal de meninas que namoram, saem com vários homens, ou seja, relata que essas meninas são depravadas, a filha deixa de se alimentar para não ter o corpo de mulher e não atrair esses homens ou ficar como essas meninas, mantendo assim o desejo da mãe.

• Lembranças ruins com comida, por exemplo: lembrar com repugnância as refeições feita com os irmãos na infância.

 Um pouco sobre a bulimia…

• Tentar tirar a mãe de dentro vomitando.

• Quando a mãe fala mal do pai para a filha, surge o transtorno na tentativa de tirar os 50% do corpo que correspondem ao pai, mantendo em segurança sua relação com a mãe.

Texto por Ana Chiappetti- Acadêmica em psicologia

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Este artigo foi escrito porBemViver

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